quinta-feira, 13 de maio de 2010

A inversão das ordens

Quando nasci estava na cara que não seria um musico. Chorava desafinado, todos os tambores e guitarrinhas que ganhava, eram devidamente quebradas. Fui crescendo e até tentei, mas o violão machucava os dedos e é sem jeito pra carregar. Instrumentos de sopro precisam de fôlego, bateria ou percussão nem em idéia carregar aquilo tudo.

Mas meus amigos todos tinham ou tem um tino musical, então tive que tentar. Mas não deu, nessa hora caiu a ficha. Todo mundo toca, todo mundo canta, mas canta o que? Aquilo que eu poderia escrever...

Então assim eu comecei, com Davi, Marcus, mas com o Leopoldo Rezende, o Piroldo, que o "trem" (no sentido mineiro e literal da palavra) engrenou. Daquele jeito, ele talvez o melhor "tocador de violão" que eu conheci, pegava minhas letras e voltava pro bar cantando.

Sempre foi assim, escrevia, alguém pegava, comia e vomitava a musica. A situação a seguir foi justamente o contrário. Leopoldo inventou uma tal de suít ferrovia, que dizia ser a melhor coisa que havia feito, seu xodozinho, mas não estava conseguindo colocar letra na bicha e me entregou as melodias.

Nunca tinha feito isso e ia começar logo com o dengo do Leopoldo, altamente perfeccionista, foi a primeira fez que tive receio de enviar algo pra ele, a primeira fez que realmente deu trabalho e não me trouxe tanto prazer o labor de buscar a palavra certa pra cada nota.

Mas acabou que deu. A primeira era um tema sobre Minas, puxei na cabeça a história e acontecimentos do meu estado e saiu a letra abaixo. Não posso negar que em cima da melodia me deu um orgulho danado.

Minas

Emboaba vem dizer que
Não é terra de ninguém
Terra fim já tem seu dono
É mineiro o que convém

Fé que cega
Sorte prega
Ladeira que vai passar
Morro velho
Sim de perto
Meu barroco a moldar

Liberdade não deve ter fim
No corpo rasgado aqui
O teu sonho é meu sonho
Ainda tardia sem ti

Pó de ferro
Ouro eterno
Procissão que vai marcar
Pedra e pedra
Caminho cerca
As montanhas vão guardar


Marca que passa corrente
Trilha que marca sempre

Esqueceu-se de mim
São caminhos com mil fins
Estações de chegar
Pra depois partir

Embora
Agora não demora
Pra ter, ou ir não viver

Implorar ou morrer
Fé pra quê

Nó de negro
Que corre pra se esconder
E há rosário
E há a fé de se tentar
A vida

Emboaba vem dizer que
Não é terra de ninguém
Terra fim já tem seu dono
É mineiro que diz amém

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