Pra quem não sabe, um grande casal de amigos está há duas semanas de receberem o Valentin, o primeiro filho deles. Abaixo é uma carta pra daqui há alguns anos, se ele quiser.
Belo Horizonte, 13 de novembro de 2011
E aí rapaz? Tudo bem? Na verdade nem posso garantir que me conheça. Talvez eu seja esse cara chato que está toda semana na sua casa, que você anda cansado de ver. Como posso ter mudado, trabalhar em outra cidade, ou morto, não sei. Caso contrário, saiba que sou o André, um grande amigo dos seus "velhos", amigo de escola do seu pai, tipo você com seus colegas de colégio.
Primeiro. Já lavou o rosto e escovou os dentes, Valentin? Você não vai querer sua mãe gritando pela quarta vez a mesma coisa, vai? Então corre lá. Talvez você não entenda nada do que eu vou escrever agora, pode guardar pra mais tarde se quiser.
Você pode estar com sete, dez ou vinte anos agora. Mas já pensou no que vai ser quando crescer, Valentin? Perto dos dez anos eu queria ser praticamente tudo, mas o que mais queria mesmo era ser arqueólogo. Sabe esses caras que ficam caçando o que praticamente não existe mais, coisas antigas e ficam em buracos cavando qualquer terrinha, pois é.
Na época em que tinha que escolher alguma coisa não tinha arqueologia. De vez enquanto sinto muita falta de não ter feito isso, hoje faço um monte de viagem biruta, ás vezes pra suprir o que eu queria ser quando crescesse. Mas adoro o que eu faço hoje, tipo escrever isso pra você. Mas se já sabe o que quer ser, astronauta, jogador de futebol ou cientista. SEJA! Dá seu jeito!
Algumas pessoas vão ficar próximas, outras infelizmente vão te desapontar. Você pode estar no primário ou na faculdade. Você vai se apaixonar garoto. Vai esconder da sua mãe, talvez fale com seu pai, mas certamente vai dizer ao seu melhor amigo. Mas essa paixão também vai acabar, o mundo vai acabar, mas a gente sabe que o mundo demora muito pra acabar de verdade (obs: isso pode acontecer mais de uma vez, ou não).
E o mais importante, acredita que muita gente tem medo ter filhos? A maioria acha um absurdo colocar mais uma pessoa num mundo caótico como o nosso, acham que as coisas não tem jeito, desistem no menor esforço.
Mas Valentin, pouco antes de você nascer, seus pais e quase todos os amigos deles pensavam diferente. Queriam outro mundo, claro. Mas não tinham medo, precisavam de algo novo pra ontem. E seus pais não tiveram opção, tinha que ser melhor agora, porque aquele mundo que era nosso, é seu também.
Então não se assuste, mas melhorá-lo agora é seu trabalho também. Os esforços dos seus pais não são apenas pra te agradar, mas para que você seja capaz de fazer o que a gente tenta todo dia. Transformar! Acho que não estamos fazendo um bom trabalho, mas confiamos em você. Ajuda a gente?
(Valentin também pode ser Leonardo, Bruno, Bernardo, João, Claudia, Letícia, Ana ou o nome que você quiser)

Nossa André, amei! Lindo! Vou ler pra ele todos os dias!
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